O grande acordo que chocou o basilisco
Um grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo.

Tem uma fábula de Esopo que parece ter sido escrita para explicar a política brasileira: o camponês encontra uma serpente congelada, sente pena, coloca o bicho no peito para aquecê-lo e, quando a serpente recupera as forças, recebe uma mordida mortal. A moral é simples: você pode aquecer uma serpente, mas não muda a natureza dela.
Bolsonaro foi esse basilisco. E ele não nasceu sozinho. Foi chocado no ambiente político criado pelo golpe contra Dilma, com Temer, Moraes e cia. ajudando a construir uma ruptura que Romero Jucá resumiu com uma sinceridade quase criminosa:
“um grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo”.
A serpente cresceu
O bolsonarismo se alimentou daquele ambiente de destruição política, antipetismo e desprezo pelas instituições. Chegou ao poder e, depois de perder a eleição, tentou impedir que Lula assumisse. E aí o basilisco mostrou sua verdadeira natureza.
O plano golpista não era apenas uma tentativa de ruptura institucional. O plano “Punhal Verde e Amarelo” previa matar Lula e Alckmin e executar ações contra Alexandre de Moraes. A própria acusação da PGR apontou que Bolsonaro sabia do plano e anuiu a ele.
É aí que a fábula fica quase perfeita.
Moraes, que nunca foi herói e muito menos democrata exemplar, tornou-se um dos principais alvos da criatura que aquele ambiente político ajudou a colocar no mundo. A serpente que ajudaram a aquecer passou a atacar justamente quem acreditava que poderia controlá-la.
Esopo de toga
E agora vem a ironia: André Mendonça, indicado por Bolsonaro ao STF, morde Alexandre de Moraes para defender Flávio Bolsonaro.
É Esopo de toga.
A criatura foi criada para destruir um adversário político. Cresceu, chegou ao poder, tentou destruir a democracia e chegou ao ponto de planejar a morte de Lula, Alckmin e Moraes.
Agora Mendonça morde Moraes.
A moral da fábula
A moral da fábula continua a mesma: você pode aquecer uma serpente, pode colocar um basilisco no colo e até acreditar que ele será útil aos seus interesses. Mas, quando ele recupera as forças, não espere gratidão.
Espere a mordida.
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