Cobras Aquecidas Sibilam

O grande acordo que chocou o basilisco

Um grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo.

Chris Schlögl 01 de setembro de 2026

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Tem uma fábula de Esopo que parece ter sido escrita para explicar a política brasileira: o camponês encontra uma serpente congelada, sente pena, coloca o bicho no peito para aquecê-lo e, quando a serpente recupera as forças, recebe uma mordida mortal. A moral é simples: você pode aquecer uma serpente, mas não muda a natureza dela.

Bolsonaro foi esse basilisco. E ele não nasceu sozinho. Foi chocado no ambiente político criado pelo golpe contra Dilma, com Temer, Moraes e cia. ajudando a construir uma ruptura que Romero Jucá resumiu com uma sinceridade quase criminosa:

“um grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo”.

A serpente cresceu

O bolsonarismo se alimentou daquele ambiente de destruição política, antipetismo e desprezo pelas instituições. Chegou ao poder e, depois de perder a eleição, tentou impedir que Lula assumisse. E aí o basilisco mostrou sua verdadeira natureza.

O plano golpista não era apenas uma tentativa de ruptura institucional. O plano “Punhal Verde e Amarelo” previa matar Lula e Alckmin e executar ações contra Alexandre de Moraes. A própria acusação da PGR apontou que Bolsonaro sabia do plano e anuiu a ele.

É aí que a fábula fica quase perfeita.

Moraes, que nunca foi herói e muito menos democrata exemplar, tornou-se um dos principais alvos da criatura que aquele ambiente político ajudou a colocar no mundo. A serpente que ajudaram a aquecer passou a atacar justamente quem acreditava que poderia controlá-la.

Esopo de toga

E agora vem a ironia: André Mendonça, indicado por Bolsonaro ao STF, morde Alexandre de Moraes para defender Flávio Bolsonaro.

É Esopo de toga.

A criatura foi criada para destruir um adversário político. Cresceu, chegou ao poder, tentou destruir a democracia e chegou ao ponto de planejar a morte de Lula, Alckmin e Moraes.

Agora Mendonça morde Moraes.

A moral da fábula

A moral da fábula continua a mesma: você pode aquecer uma serpente, pode colocar um basilisco no colo e até acreditar que ele será útil aos seus interesses. Mas, quando ele recupera as forças, não espere gratidão.

Espere a mordida.

Quem serviu esse café?

Chris Schlögl
Chris Schlögl

É jornalista e criador do Café, Amigos e Sinceridades, um espaço onde opinião e café se misturam sem pressa. Prefere o amargor da verdade ao açúcar da conveniência. Escreve para provocar conversa, não consenso. Acredita que jornalismo é janela, não vitrine.

Aviso legal: O conteúdo acima é de responsabilidade exclusiva do autor, não representando necessariamente a opinião do portal Café News. A publicação foi realizada por meio de colaboração voluntária e o conteúdo é de inteira autoria e responsabilidade do colaborador.

↓ PUBLICIDADE ↓