O papel picado da grande mídia
O debate da Band deixou uma coisa muito mais evidente do que quem conseguiu a melhor resposta ou quem produziu o corte mais viral: a grande mídia brasileira continua sabendo muito bem quem merece espaço e quem pode ser deixado fora dele.

O debate da Band deixou uma coisa muito mais evidente do que quem conseguiu a melhor resposta ou quem produziu o corte mais viral: a grande mídia brasileira continua sabendo muito bem quem merece espaço e quem pode ser deixado fora dele.
E, nesse caso, a escolha foi bastante reveladora. Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury estavam no palco. Nenhum candidato de esquerda estava.
Não estou falando de Lula. Lula foi convidado e não compareceu. Flávio Bolsonaro e Romeu Zema também não compareceram e respondem politicamente pelas próprias escolhas. Estou falando das candidaturas de esquerda que sequer fizeram parte daquele debate.
Quem ficou fora do palco
Samara Martins estava disponível. Mulher negra, cirurgiã-dentista do SUS, ativista política, dirigente da Unidade Popular e candidata à Presidência. Em 2022, foi candidata a vice-presidente na chapa de Leonardo Péricles, numa candidatura integralmente negra. Agora disputa a Presidência como cabeça de chapa.
Também estavam na disputa Edmilson Costa, do PCB, Hertz Dias, do PSTU, professor da rede pública, militante do movimento negro e candidato à Presidência, e Rui Costa Pimenta, do PCO. São candidaturas de esquerda que existem, têm partidos, propostas e estão disputando o voto do brasileiro.
E eu faço questão de citar todos eles mesmo me aprofundando em Samara, porque a questão não é simplesmente a ausência de uma candidata. É a ausência de uma parte inteira do espectro político brasileiro.
E isso ficou ainda mais evidente porque, no lugar dela e dos demais candidatos de esquerda, tivemos três homens da direita disputando o mesmo espaço e, em boa parte do tempo, disputando quem bateria mais em Lula. Mesmo ausente, Lula acabou sendo um dos principais personagens do debate.
Isso não é um debate entre dois lados equivalentes. Eu não compro essa narrativa de “dois lados”. Há projetos políticos diferentes, há posições diferentes dentro da própria esquerda e da própria direita, e há uma imprensa que deveria permitir que o eleitor conhecesse essas diferenças.
Mas quando a grande mídia monta um palco em que a esquerda não está e a direita está representada por três candidatos, alguma coisa está muito errada.
E não adianta dizer que Samara teria pouco voto, que Hertz teria pouco voto, que Edmilson teria pouco voto ou que Rui Pimenta teria pouco voto. Se esse fosse o critério absoluto, então deveríamos discutir com transparência quais são as regras e por que elas são aplicadas de uma maneira e não de outra. O que não dá é naturalizar a ausência da esquerda e depois vender o palco como se fosse uma representação ampla da disputa presidencial.
Quebrar rende mais vídeo
É nesse ponto que eu lembro de uma frase do meu amigo Tihh que achei perfeita. Ele escreveu que, em vez de dizer “vamos consertar”, o candidato grita “vamos quebrar tudo”. E, como ele próprio observou, quebrar tudo costuma render mais vídeo do que consertar cano.
É exatamente isso que o debate mostrou.
Quem promete consertar precisa explicar como. Precisa discutir política pública, orçamento, trabalho, saúde, educação, desigualdade. Precisa aceitar perguntas difíceis e explicar o que pretende fazer depois de ganhar a eleição.
Quem promete destruir precisa apenas apontar o que odeia.
E isso rende corte.
Renan Santos entendeu perfeitamente a lógica. A ausência de Lula e Flávio virou parte da própria performance, inclusive com a utilização dos púlpitos vazios como elemento visual. Caiado também explorou os ausentes e os chamou de “fujões”.
Cury fez algo que considero ainda mais interessante. Primeiro ameaçou abandonar o debate justamente pela ausência de Lula e Flávio. Depois voltou e participou. E ainda quis ocupar o lugar do candidato sensato, daquele que estaria acima da briga.
Só que eu já escrevi sobre isso aqui.
Quando existe alguém apanhando e alguém batendo, dizer que é preciso “ouvir os dois lados” não é necessariamente neutralidade. Às vezes é simplesmente uma maneira confortável de não defender quem está apanhando.
É o que me incomoda nesse discurso de Cury. Ele pode trocar a agressividade explícita pela linguagem mansa, pode falar em diálogo, equilíbrio e compreensão, mas isso não transforma automaticamente sua posição política em algo neutro. É possível ser um bolsonarista de sapatênis. O sujeito abandona a estética do grito, mas conserva a velha lógica de apresentar a esquerda como o problema e a direita como a alternativa razoável.
A embalagem muda. A lógica permanece.
O papel picado
E então chegamos ao papel picado.
Cada candidato vai pegar um pedaço do debate e entregar aquele pedaço ao seu público como se fosse o debate inteiro. Uma frase verdadeira, uma acusação, uma resposta, uma reação. O que aconteceu antes desaparece. O que aconteceu depois também. O contexto vira inconveniente.
É aí que entra a fake news.
E eu faço questão de deixar isso claro: fake news é mentira e meia-verdade. Não é necessário inventar uma história inteira. Uma meia-verdade retirada do contexto pode produzir exatamente o efeito de uma mentira.
O candidato pica o debate.
A campanha pica a realidade.
E o algoritmo distribui o pedaço que provoca mais reação.
Só que existe um papel picado anterior, produzido pela própria grande mídia: quem recebe o palco e quem fica fora dele.
Primeiro se decide quem terá o microfone. Depois cada candidato decide qual pedaço do que aconteceu será distribuído. No final, o algoritmo escolhe o que vai chegar ao eleitor.
Quem o eleitor não ouviu
E isso explica por que eu não consigo olhar para o debate da Band apenas como mais um programa eleitoral.
Porque Samara Martins poderia ter estado ali.
Uma mulher negra, trabalhadora do SUS, militante política, candidata à Presidência, com um projeto socialista e uma história política própria. Poderia ter sido questionada, confrontada, criticada e, principalmente, ouvida. Hertz Dias poderia ter estado ali. Edmilson Costa poderia ter estado ali. Rui Costa Pimenta poderia ter estado ali.
Mas não estavam.
No lugar deles, três candidatos da direita ocuparam o palco e passaram boa parte da noite disputando quem seria mais eficiente em atacar Lula.
E depois nós ainda somos convidados a acreditar que o problema é apenas o candidato que fez o corte mais agressivo para o Instagram.
Não.
O corte começou antes.
Começou quando decidiram quem teria direito ao palco.
E é justamente por isso que a história do papel picado me interessa. Não é apenas sobre os vídeos que veremos hoje nas redes sociais. É sobre a quantidade de realidade política que foi retirada antes mesmo de a transmissão começar.
Porque, quando você decide quem pode falar, também está decidindo quem o eleitor não vai ouvir.
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