Morre Bagre Fagundes, autor de símbolos da cultura gaúcha, aos 86 anos
Coautor de “Canto Alegretense” e “Origens”, músico deixa uma obra marcada pela identidade, pela família e pela tradição do Rio Grande do Sul.

A cultura gaúcha perdeu um de seus nomes mais importantes. Euclides Fagundes Filho, conhecido como Bagre Fagundes, morreu no domingo, 2 de agosto, aos 86 anos, em Porto Alegre.
A morte foi confirmada pelo filho, Ernesto Fagundes. Cantor, compositor e integrante de Os Fagundes, Bagre construiu uma trajetória marcada pela música, pela família e pela defesa das tradições do Rio Grande do Sul.
Os últimos meses
Bagre estava internado no Hospital Ernesto Dornelles desde maio. A internação ocorreu depois que ele sofreu uma parada cardiorrespiratória ao se engasgar durante um almoço em casa.
A causa médica da morte não foi divulgada. O velório foi marcado para esta segunda-feira, 3 de agosto, no Palácio Piratini, em Porto Alegre, com cerimônia aberta ao público a partir das 10h.
O governador Eduardo Leite afirmou que a homenagem no Palácio Piratini seria uma forma de agradecer, em nome dos gaúchos, pela contribuição de Bagre à cultura do Estado.
Uma vida com muitos caminhos
Bagre nasceu em 3 de outubro de 1939, em Uruguaiana, mas cresceu em Alegrete ao lado de seis irmãos e cinco irmãs. Era filho de Euclides Fagundes e Florentina Fagundes, conhecida como Mocita.
Ao longo da vida, foi militar, bancário, advogado, vereador, candidato a prefeito, jogador e árbitro de futebol. Também atuou como colunista, mas foi na música que encontrou a forma mais conhecida de expressar sua ligação com o Rio Grande do Sul.
Casado por mais de seis décadas com Marlene Vilaverde Fagundes, teve quatro filhos: Neto, Ernesto, Luciana e Paulinho.
Canções que viraram símbolos
Ao lado do irmão Antônio Augusto Fagundes, o Nico, Bagre criou algumas das obras mais conhecidas da música regionalista.
Ele compôs a melodia de “Canto Alegretense” a partir de um poema escrito por Nico. A música atravessou gerações, recebeu diferentes interpretações e se tornou uma espécie de hino informal do Rio Grande do Sul.
A história da canção começou depois que um colega perguntou a Nico onde ficava Alegrete. A resposta inspirou os primeiros versos do poema. Mais tarde, Bagre encontrou o texto e criou a melodia em sua gaita de quatro baixos.
A dupla também assinou “Origens”, canção que foi tema de abertura do programa Galpão Crioulo por quase quatro décadas. Outras composições da parceria incluem “Escravo de Saladeiro” e “Oração à Terra”.
Uma história cantada em família
A música também se tornou uma herança familiar. Entre as décadas de 1970 e 1980, Bagre participou de Os Angüeras e, mais tarde, formou o Grupo Inhanduy com os filhos.
O projeto deu origem ao grupo Os Fagundes, oficializado no início dos anos 2000. A formação reuniu diferentes gerações da família e ajudou a manter viva a obra construída por Bagre e Nico.
As apresentações do grupo levaram a música gaúcha a diferentes palcos e aproximaram clássicos do regionalismo de novos públicos.
Uma obra que atravessou fronteiras
“Canto Alegretense” recebeu dezenas de gravações e interpretações. A família estima que a composição tenha ganhado mais de cem versões. A obra já foi cantada por nomes como Alcione, Sérgio Reis e Gabriel O Pensador.
A melodia também foi executada pelo tecladista Don Airey, do Deep Purple, durante uma apresentação em Porto Alegre.
A família apresentou a música em lugares como o Museu do Louvre, em Paris, e em gôndolas de Veneza. Em Alegrete, trechos da letra estão expostos em placas na entrada da cidade.
Em 2024, a canção voltou a ganhar projeção nacional ao aparecer no BBB 24 e no Planeta Atlântida, onde Neto Fagundes dividiu o palco com Luísa Sonza. O cantor Lucas Silveira também lembrou a composição durante o festival.
O reconhecimento de uma trajetória
A morte de Bagre provocou manifestações de artistas, autoridades e admiradores da cultura regionalista.
Renato Borghetti destacou o músico como um exemplo inspirador. Shana Müller lembrou o incentivo dado por Bagre aos filhos e aos novos artistas, enquanto Cristiano Quevedo ressaltou a relação quase paternal que ele mantinha com músicos mais jovens.
A secretária de Cultura de Porto Alegre, Liliana Cardoso, destacou a ligação de Bagre com o patrimônio, a memória e o pertencimento. O músico Vinícius Brum lembrou que ele já havia se imortalizado em vida por meio de obras como “Canto Alegretense” e “Origens”.
O canto continua
Bagre Fagundes deixa uma obra presente em festivais, encontros familiares, apresentações musicais e celebrações da identidade gaúcha.
Mais do que compor canções, ele ajudou a transformar histórias de família, paisagens e sentimentos do Rio Grande do Sul em símbolos compartilhados por diferentes gerações.
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