Conexões, acordos e silêncio

Quando a escolha é não ligar os pontos

No fim, tudo volta para o mesmo lugar: o dinheiro.

Chris Schlögl 17 de abril de 2026

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Senta aqui, puxa a cadeira. Hoje não tem pressa. Se o café esfriar, eu até peço uma cerveja pra minha senhora ali dentro, mas pra mim fica o chopp de vinho. Sexta pede isso, uma conversa mais longa, sem precisar medir cada palavra, deixando as coisas irem aparecendo no tempo delas. Eu tenho andado cansado, mas não é só de trabalho. É desse ambiente, de toda essa gente que não entende o mundo em que vive, dessa sensação de que alguma coisa se rompeu no meio do caminho. No trabalho, na família, entre amigos, gente que dividia mesa, fé e risada hoje repete discurso como se fosse oração, e não é qualquer discurso, virou devoção, idolatria, culto mesmo.

A figura de Jair Bolsonaro deixou de ser política para muita gente e virou mito, resposta pronta, quase um lugar de fé. E isso, vindo de quem sempre falou de evangelho, de humildade, de cuidado com o outro, e isso pesa de um jeito que não encaixa.

Aqui em Santa Catarina isso não é teoria, é clima, é cotidiano, é o tipo de coisa que faz surgir um apelido meio irônico, meio desconfortável, de Santa Catareich. Não nasce do nada. É um lugar onde já apareceram células neonazistas em número suficiente para preocupar, onde o discurso radical deixou de ser exceção e virou ambiente. Algumas coisas aparecem, outras ficam no ar, mas o conjunto vai se impondo.

E às vezes isso desce para a vida real de um jeito que a gente preferia nunca ver. Eu conheço amigo aqui que teve arma apontada para filho pequeno por comemorar o fim de um governo que matou muita gente na pandemia, e quando você escuta uma história dessas, muda a forma como você enxerga o silêncio, muda a forma como você entende o medo.

Minha esposa, aquela que eu pedi a cerveja lá dentro, vive me pedindo cuidado, não por discordar, mas por saber exatamente onde a gente está pisando. E é um medo que faz sentido.

Mesmo assim, de vez em quando, alguma coisa respira. Recentemente, o Supremo Tribunal Federal formou maioria para derrubar a lei de Santa Catarina que proibia cotas raciais, numa ação puxada pelo PSOL junto com a UNE e a Educafro. Não resolve tudo, ninguém aqui é ingênuo, mas lembra que ainda existe disputa, que nem tudo está dado.

Seguir o dinheiro

Talvez seja exatamente por viver nesse contraste que o noticiário incomoda tanto, porque quando eu olho para a relação entre Ibaneis Rocha e Paulo Henrique Costa, eu não consigo ver só uma nomeação. O que aparece ali é um sistema funcionando, uma engrenagem que não começa nem termina naquele cargo.

Ibaneis se move dentro do mesmo ambiente que orbitou o governo de Jair Bolsonaro, dialoga com figuras como Ciro Nogueira e participa dessa lógica onde política, mercado e poder se encontram o tempo todo. E se bobear ganha como senador ainda. E é aqui que entra uma coisa simples, mas que muda completamente a forma de enxergar a história: seguir o dinheiro.

Quando você segue o dinheiro, o caso deixa de ser sobre um nome e passa a ser sobre uma rede. E isso não é teoria, está registrado. Nas eleições de 2022, o empresário e pastor Zettel doou R$ 5 milhões em campanhas, sendo R$ 3 milhões para Jair Bolsonaro e R$ 2 milhões para Tarcísio de Freitas, tornando-se o maior doador pessoa física de ambos naquele processo eleitoral. Isso está no Tribunal Superior Eleitoral, não é escondido, não depende de interpretação.

E mesmo assim, quase nunca aparece como eixo da história.

Quando você começa a puxar esse fio, outras conexões vão surgindo, passando por operadores do sistema financeiro como Daniel Vorcaro e chegando em figuras que raramente viram manchete, mas ajudam a sustentar esse tipo de engrenagem onde dinheiro, relação pessoal e política se misturam. O próprio Zettel, cunhado do Vorcaro, hoje preso, não aparece como protagonista nas reportagens, mas está ali dentro do circuito, compondo esse desenho que dificilmente é mostrado por inteiro.

E isso não fica restrito à política ou ao mercado. Passa também por redes religiosas com enorme capacidade de mobilização, como a Igreja Batista da Lagoinha, que não aparecem só como espaço de fé, mas surgem também em investigações orbitando esses mesmos ambientes de roubo, influência e dinheiro.

Quando você junta essas peças com calma, sem pressa, começa a aparecer um desenho mais amplo, um fluxo em que o dinheiro circula, o poder se sustenta e a política deixa de ser apenas discurso para se tornar projeto.

O que não se conecta

E aí tem uma diferença que incomoda dizer em voz alta, mas que aparece quando você olha de perto. Esse tipo de circuito mais fechado, onde dinheiro, família, influência e poder caminham quase dentro do mesmo grupo, não se apresenta com a mesma estrutura na esquerda. A esquerda tem seus problemas, suas contradições e merece crítica, mas esse modelo específico, com cara de rede familiar(Máfia) e financeira ao mesmo tempo, é muito mais característico desse campo que se vende como antissistema.

O que chama atenção é que esse desenho não está escondido, ele só não é montado. Veículos como CNN Brasil, TV Globo e o G1 apresentam as peças, uma a uma, mas evitam colocá-las lado a lado. E quando você deixa de conectar o que já está disponível, isso deixa de ser descuido e passa a ser escolha.

Porque, no momento em que você junta tudo, você não atinge só político. Você encosta em banco, em empresa, em anunciante, em estruturas que também sustentam quem está contando a história. No fim das contas, tudo volta para o mesmo lugar, a grana, e é aí que o silêncio ganha outro sentido.

Agora, já com o copo no final e a conversa mais baixa, naquele momento em que ninguém precisa levantar a voz para ser entendido, fica uma sensação difícil de ignorar. A mídia não ignora porque não viu. Ela ignora porque sabe exatamente o que aparece quando alguém resolve seguir o dinheiro até o fim, e talvez seja justamente por isso que ela escolhe parar antes.

Quem serviu esse café?

Chris Schlögl
Chris Schlögl

É jornalista e criador do Café, Amigos e Sinceridades, um espaço onde opinião e café se misturam sem pressa. Prefere o amargor da verdade ao açúcar da conveniência. Escreve para provocar conversa, não consenso. Acredita que jornalismo é janela, não vitrine.

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