Afeto, escuta e cuidado

Entre quem amamos e o mundo que nos atravessa

Quando o discurso que vem da internet entra pela porta de casa, o amor precisa aprender a conversar sem desistir de ninguém.

Chris Schlögl 04 de abril de 2026

Foto: Divulgação
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Sexta-feira pede café forte. Não aquele feito às pressas, mas o que fica alguns minutos a mais no fogo, como se também precisasse pensar antes de existir. Há dias em que escrever é exatamente isso: tentar entender as pessoas que amamos quando elas parecem caminhar para longe de nós, mesmo sentadas à mesma mesa.

Semana passada foi aprovada uma nova lei contra a misoginia. Li as notícias pensando menos na política e mais nas casas brasileiras. Porque lei nenhuma nasce apenas no Congresso. Ela nasce antes, no cansaço acumulado de mulheres que ouviram demais, suportaram demais, foram reduzidas demais. A lei chega depois, quando a sociedade finalmente admite que certas violências não são opinião, são feridas.

E então pensei no meu irmão

Meu irmão ajuda a cuidar da mãe, da irmã, da sobrinha de dez anos. Na vida concreta ele protege mulheres. Na internet, porém, repete discursos que dizem que mulheres são o problema do mundo. Essa contradição não é rara. Talvez seja o retrato mais fiel do nosso tempo: pessoas boas vivendo presas dentro de narrativas ruins.

Ele reclama da vida, do país, do futuro. A dificuldade de encontrar trabalho pesa, o sentimento de inadequação cresce, e a internet aparece oferecendo explicações simples para dores complexas. Sempre existe um culpado pronto: mulheres, feminismo, um comunismo imaginário que serve mais como fantasma emocional do que como realidade política.

A lógica é sedutora porque organiza o caos. Se alguém é culpado, então o sofrimento ganha sentido. O problema é que, quando a culpa vira identidade, a pessoa começa a lutar contra quem nunca foi seu inimigo.

Não vejo nele ódio puro. Vejo frustração procurando linguagem.

O que me entristece não é apenas o que ele diz, mas o quanto essas ideias roubam dele a possibilidade de encontro. Porque quem aprende a desconfiar das mulheres aprende também, sem perceber, a desconfiar do afeto. E quem desconfia do afeto acaba sozinho dentro das próprias certezas.

Fé, medo e vínculo

Minha mãe, evangélica de origem batista, também atravessa esse território. A tradição batista nasceu questionando poder, defendendo consciência individual, liberdade espiritual. Ainda assim, hoje, parte desse universo religioso foi capturada por discursos políticos que transformam medo em fé e conflito em identidade.

Não culpo minha mãe. A fé sempre foi, para ela, uma forma de cuidado. O problema é quando o cuidado passa a ser mediado pelo medo constante de um inimigo invisível.

Eu escrevo este texto não para vencer discussões. Escrevo porque amo os dois.

Amar alguém, às vezes, é assistir a pessoa sendo convencida por histórias que diminuem o mundo. E continuar ali mesmo assim. Não gritando mais alto, não humilhando, não rompendo pontes que talvez ainda possam ser atravessadas.

Aprendi que ninguém abandona uma crença porque perdeu um argumento. As pessoas mudam quando voltam a se sentir seguras fora dela.

Talvez meu irmão precise menos de correção e mais de horizonte. Menos de confronto direto e mais de experiências que contradigam silenciosamente aquilo que ele acredita. Trabalho, amizade, reconhecimento, pertencimento. Coisas que nenhuma guerra cultural entrega, mas que toda vida precisa.

E talvez minha mãe precise lembrar que o evangelho que a formou falava mais de compaixão do que de combate.

No fim, sobre proximidade

A nova lei contra a misoginia tenta proteger mulheres no espaço público. Dentro de casa, porém, a tarefa continua sendo nossa: proteger também os vínculos, impedir que o amor seja devorado por narrativas que vivem de separar pessoas.

No fim, percebo que escrevo não sobre política, mas sobre proximidade.

Porque o maior desafio não é discordar de quem está longe. É continuar enxergando humanidade em quem amamos quando o mundo insiste em transformá-los em caricaturas.

O café esfria enquanto penso nisso.

E talvez amar seja exatamente isso: permanecer sentado à mesa, mesmo quando a conversa ainda não encontrou o caminho de volta.

Quem serviu esse café?

Chris Schlögl
Chris Schlögl

É jornalista e criador do Café, Amigos e Sinceridades, um espaço onde opinião e café se misturam sem pressa. Prefere o amargor da verdade ao açúcar da conveniência. Escreve para provocar conversa, não consenso. Acredita que jornalismo é janela, não vitrine.

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