Narrativa, poder e disfarce

O requentado da credibilidade

Quando a cobertura política deixa de informar para reposicionar personagens, o jornalismo vira cenário e não investigação.

Chris Schlögl 25 de março de 2026

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Senta aqui. Puxa a cadeira. O café hoje não veio recém passado. É aquele que ficou na garrafa térmica tempo demais, esfriou, alguém resolveu requentar e servir mesmo assim. Dá pra beber, mas o gosto denuncia o processo. É exatamente essa sensação que fica ao acompanhar a cobertura recente sobre a filiação de Sergio Moro ao Partido Liberal e o entusiasmo público de Flávio Bolsonaro, amplificado por veículos como a CNN Brasil.

Não se trata apenas da notícia em si, publicada no dia 24 de março no portal CNN. Filiações partidárias acontecem, alianças mudam, a política é dinâmica. O ponto está em como a mídia constrói a narrativa e quais enquadramentos escolhe priorizar.

A matéria destaca “idas e vindas” de Moro com o bolsonarismo como se fossem hesitações pessoais, quase dilemas individuais, suavizando o aspecto estrutural da questão: Moro não apenas orbitou o bolsonarismo, ele foi peça central na reorganização do campo político que permitiu sua ascensão. Quando o texto reduz isso a movimentos táticos eleitorais, ocorre um deslocamento semântico. O histórico político vira detalhe. O presente eleitoral vira protagonista.

Normalização em curso

Esse é um recurso clássico de enquadramento jornalístico chamado normalização progressiva. Primeiro, apresenta-se o personagem em tom neutro. Depois, legitima-se sua reinserção institucional. Por fim, o conflito político é tratado como divergência comum entre atores democráticos equivalentes.

A outra matéria colocada logo abaixo no portal no mesmo dia, ao destacar a confiança de Flávio e as “portas abertas”, funciona quase como extensão da assessoria política. A escolha editorial não é inocente. O foco sai das implicações ideológicas e vai para a cordialidade institucional. O leitor recebe menos análise de risco democrático e mais narrativa de reconciliação política.

O problema central

Aqui entra o problema central.

Quando veículos de grande alcance passam a tratar agentes ligados a projetos autoritários apenas sob a lente estratégica ou eleitoral, ocorre o que estudiosos da mídia chamam de desradicalização narrativa. O discurso permanece o mesmo, mas a moldura muda. E moldura, em jornalismo, é poder.

Não é exclusividade da CNN. A TV Globo também demonstrou recentemente como esse mecanismo opera ao produzir o famoso powerpoint televisivo que tentou redistribuir responsabilidades políticas do caso Master que respinga em figuras como Bolsonaro e Tarcísio, tentou colar na esquerda e que somente após reação pública negativa, pediu desculpas. O pedido veio, mas o efeito já estava produzido.

A parábola do papel picado

É aí que entra a parábola do papel picado que a direita usa como arma de guerra:

Um monge sobe a montanha com um saco de papel picado e o lança ao vento. Depois, arrependido, tenta recolher os pedaços. Impossível. O dano não está na intenção posterior, mas na dispersão inicial.

O powerpoint recente, não foi apenas um erro editorial. Funcionou como aquilo que o humor popular chamaria de um “sem querer querendo”. A informação circula, fixa percepções, alimenta redes sociais, reforça narrativas políticas já existentes. O desmentido nunca alcança a mesma velocidade do primeiro impacto.

Técnica e efeito

Essa técnica não nasceu no jornalismo tradicional, mas foi aperfeiçoada pela extrema direita contemporânea: lançar versões, testar narrativas, recuar parcialmente e manter o efeito residual. O problema é quando grandes veículos passam a reproduzir, consciente ou inconscientemente, a mesma lógica.

O risco não está em entrevistar, noticiar ou mencionar figuras como Flávio Bolsonaro. Isso é obrigação jornalística. O perigo surge quando a cobertura abandona critérios de proporcionalidade histórica e passa a tratar projetos políticos radicalizados como apenas mais uma corrente legítima dentro do jogo democrático, sem contextualização robusta.

Jornalismo e responsabilidade

Jornalismo não é neutralidade estética. É responsabilidade contextual.

Quando a mídia suaviza trajetórias, humaniza estratégias sem confrontar consequências e prioriza declarações em detrimento de análise crítica, ela não apenas informa. Ela reposiciona personagens no imaginário público.

E aí o café chega requentado. Ainda quente o suficiente para ser servido, mas já sem o aroma da verdade recém filtrada. Porque depois que o papel picado desce da montanha, não há editorial, retratação ou pedido de desculpas capaz de recolher tudo que já foi espalhado ao vento.

Quem serviu esse café?

Chris Schlögl
Chris Schlögl

É jornalista e criador do Café, Amigos e Sinceridades, um espaço onde opinião e café se misturam sem pressa. Prefere o amargor da verdade ao açúcar da conveniência. Escreve para provocar conversa, não consenso. Acredita que jornalismo é janela, não vitrine.

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