Bandeiras fincadas na cidade em Itajaí
Quando o espaço público revela quem governa o símbolo.

Vamos tomar um café na beira-rio de Itajaí? Eu gosto de ir ali às vezes, tomar um café, levar minha pet filha pra passear, a Golden Amora. Sentar sem pressa, olhar a água correndo, olhar os barcos ali estacionados, a cidade em circulação. A partir desse ponto tem algo que me causa repulsa: basta levantar os olhos e as bandeiras do Brasil, fincadas em varas de bambu, estão ali. Estão também espalhadas por outros pontos da cidade, reaparecem na estrada que liga Itajaí a Balneário Camboriú, mudam de lugar, somem e voltam. Não é acaso. É insistência.
Eu sempre admirei nosso estandarte. Acho ela linda. Não é a bandeira isolada que importa, ou que me incomoda, mas o conjunto da obra. Desde que ela foi sequestrada por uma seita de loucos e fanáticos. O primeiro passo para entender é observar o padrão. Em que períodos elas surgem com mais força, como reaparecem após fins de semana, feriados cívicos, datas simbólicas do bolsonarismo. Repetição exige organização. Organização exige estrutura, ainda que discreta. Nada disso acontece por improviso.
O território fala
O segundo ponto é o território. As bandeiras não ocupam qualquer espaço. Estão nas entradas da cidade, em rotatórias, na beira-rio, em pontos visíveis para quem vem de Balneário. São locais de alto fluxo e alto impacto visual. Isso não é decoração urbana. É comunicação política. Quem coloca sabe onde colocar e por quê.
O terceiro indício está no material. Bambu não aparece por geração espontânea. Alguém compra, corta ou recolhe em quantidade. Isso remete a fornecedores locais, depósitos, comércio de materiais, gente que já opera com esse tipo de recurso. Cada bandeira tem custo. Pequeno, mas acumulado. Onde há repetição, há financiamento, mesmo que diluído.
O quarto ponto é a manutenção. Bandeiras rasgam, desbotam, caem. E são recolocadas. Isso exige acompanhamento constante e acesso facilitado aos pontos onde estão fincadas. Não se trata de trabalhadores comuns cumprindo sua rotina, mas de pessoas com autonomia de circulação política e segurança suficiente para agir sem questionamento. A permanência do símbolo depende dessa proteção tácita.
A rede por trás do gesto
O quinto elemento é o discurso que acompanha o gesto. Mesmo sem assinatura, essas bandeiras nunca ficam sozinhas. Elas aparecem junto de adesivos em carros, camisetas verde e amarelas fora de época, falas repetidas em redes de bairro, grupos de WhatsApp, páginas locais. O símbolo prepara o terreno. A fala confirma a rede. Onde há rede, há caixa comum, contribuição recorrente, financiamento informal e validação mútua.
O sexto ponto é o contexto político local. Itajaí teve uma eleição majoritariamente bolsonarista. A prefeitura está nas mãos do PL. Isso muda tudo. O símbolo não está em território hostil. Ele está em terreno amigo. A bandeira fincada não desafia o poder, ela dialoga com ele. Em ambientes assim, o anonimato não é medo. É conforto institucional.
E é justamente aí que o fenômeno deixa de ser apenas estético e passa a ser político no sentido mais profundo. Quando o partido que governa também disputa o significado dos fatos, o símbolo ganha outra função. Não é só presença visual, é enquadramento da realidade. A recente declaração da vereadora Liliane Fontenele do PL afirmando que não haveria violência contra mulheres em Itajaí e região não surge isolada. Ela revela um mecanismo recorrente: primeiro ocupa-se o imaginário com símbolos patrióticos, depois redefine-se o que pode ou não ser reconhecido como problema social.
O símbolo como narrativa
A lógica é simples e eficaz. Se o território parece homogêneo, se o verde e amarelo domina a paisagem, cria-se a sensação de consenso. E onde há aparência de consenso, a crítica passa a soar como exagero, invenção ou ataque político. O símbolo prepara o ambiente para a distorção discursiva. A bandeira deixa de representar o país e passa a funcionar como escudo narrativo.
Assim, a deturpação não acontece apenas nas falas oficiais, mas na paisagem cotidiana. A cidade aprende a naturalizar certas presenças e, ao mesmo tempo, a duvidar de certas dores. O espaço público vira extensão simbólica de um projeto político que governa e, ainda assim, precisa reafirmar diariamente sua versão da realidade.
Rastrear quem coloca essas bandeiras não é procurar um bode expiatório. É entender como o poder se naturaliza na paisagem. Como a ocupação visual antecede a ocupação do debate. Como o símbolo, repetido até parecer neutro, ajuda a transformar opinião em ambiente.
Tomar um café na beira-rio ajuda a perceber isso com clareza. A cidade segue seu curso. A água não escolhe lado. Só o símbolo insiste em permanecer fincado, como se precisasse lembrar todos os dias quem tenta definir mentiras e ou coisas bem distantes da realidade. O que pode ser visto, dito e até reconhecido como pseudoverdade no chão que todos pisam.
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