Seletividade, Ideologia, Castigo

Orelha vs Justiça

Quando a justiça escolhe um culpado para salvar todo o resto.

Chris Schlögl 04 de fevereiro de 2026

Foto: Divulgação
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Tem casos que pedem silêncio.
Este pede café amargo.

O caso Orelha não é só sobre a morte cruel de um cachorro comunitário. Isso, por si, já seria suficiente para revoltar qualquer pessoa minimamente humana. Mas o que se construiu depois da violência é ainda mais perturbador. Porque o que está em jogo não é apenas quem matou, mas como o sistema decidiu quem pagaria a conta.

Cinco jovens foram inicialmente envolvidos. Dois deles viajaram para a Disney logo após o ocorrido. Adultos ligados ao grupo foram indiciados por intimidação de testemunhas. Isso não é detalhe. Isso é interferência direta no processo. Ainda assim, a investigação vai se estreitando até desembocar em um único adolescente.

A narrativa oficial começa a ranger quando a própria delegada do caso, em entrevista ao Fantástico, afirma que as provas que antes pareciam existir agora não existem mais. Imagens que circularam como certas passam a ser tratadas como inexistentes ou inconclusivas. Não estamos falando de boato de rede social, mas de uma fala pública, em cadeia nacional, admitindo a ausência de provas diretas.

O que está em jogo

Esse ponto é central. Porque quando não há imagens, quando testemunhas são pressionadas, quando adultos tentam interferir e quando ainda assim se aponta um culpado definitivo, o que se produz não é certeza jurídica. É conveniência institucional.

Some-se a isso o fato noticiado de que a juíza do caso mantém relação de amizade com família envolvida. Em qualquer cenário minimamente ético, isso exigiria afastamento. Aqui, passa quase como nota de rodapé. O delegado responsável tem viés bolsonarista conhecido. E isso importa não como rótulo, mas como prática. O bolsonarismo opera com punitivismo seletivo, moralização rasa e tolerância estrutural com desigualdade desde que ela beneficie os seus.

O discurso que conforta

É nesse terreno que Mario Mota atua. Bolsonarista declarado, falando para um público catarinense majoritariamente bolsonarista. Ele não questiona a investigação, não problematiza a ausência de provas, não toca nas relações de classe, nem nas viagens internacionais, nem na intimidação de testemunhas. Ele entrega a narrativa perfeita para esse eleitorado.

O problema não são famílias ricas e influentes. Não é a polícia. Não é o Judiciário. Não é a seletividade. O problema é o ECA. O problema é a idade. O problema é a “impunidade”.

Mario Mota desloca ainda mais o foco quando joga a responsabilidade no governo federal e nas leis nacionais. Segundo ele, o entrave está em Brasília, na legislação, nas garantias. E arremata com a frase ensaiada: fará a parte dele aqui em Santa Catarina, mas não pode fazer muito em nível nacional.

Quando o discurso é estratégia

Isso não é limitação. É cálculo político. Preserva o sistema local, preserva elites catarinenses, preserva Judiciário e polícia, enquanto cria um inimigo distante e abstrato. O problema nunca está aqui. Está sempre fora.

E há mais. Mario Mota faz questão de repetir que esse debate não é de direita nem de esquerda, que não se trata de lado político. Essa é talvez a parte mais cínica do discurso. Ao negar o recorte ideológico, ele neutraliza a própria ideologia que carrega. Faz um discurso de direita soar técnico, moral e inevitável. Retira o conflito político para tornar o punitivismo aceitável como senso comum.

O custo do castigo

É assim que a engrenagem fecha.

Isso conversa diretamente com o imaginário catarinense bolsonarista, que exige punição dura, mas nunca para dentro do próprio círculo social. Quer cadeia, mas para o outro. Quer rigor, mas sem tocar nos sobrenomes conhecidos, nos condomínios caros, nos filhos parecidos com os seus.

Mario Mota funciona como mediador ideológico. Ele pega um caso atravessado por blindagem de classe e o converte em sermão moral confortável. O debate deixa de ser sobre quem foi protegido e passa a ser sobre idade. Deixa de ser sobre poder e vira discurso. Deixa de ser sobre justiça concreta e vira castigo simbólico.

Castigo simbólico, justiça concreta

O resultado é conhecido.
Famílias influentes preservadas.
Instituições blindadas.
Um bode expiatório carregando o peso de um crime coletivo.

O caso Orelha diz pouco sobre adolescentes e muito sobre adultos. Adultos que interferem, que silenciam, que moldam versões. Revela um Estado que não falha por acaso, mas escolhe como operar. E revela um discurso que grita por punição enquanto garante que ela nunca alcance os filhos certos.

Orelha morreu duas vezes.
Morreu uma vez na violência.
E outra na justiça que escolhe o que não enxergar.

Quem serviu esse café?

Chris Schlögl
Chris Schlögl

É jornalista e criador do Café, Amigos e Sinceridades, um espaço onde opinião e café se misturam sem pressa. Prefere o amargor da verdade ao açúcar da conveniência. Escreve para provocar conversa, não consenso. Acredita que jornalismo é janela, não vitrine.

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