Despolarização Hipocrisia Democracia

O Brasil não está rachado por excesso de ideologia, mas por desigualdade e por uma direita que flerta com golpe

Política não se faz com ódio, pois não é função hepática. Política é filha da consciência, irmã do caráter e hóspede do coração.

Chris Schlögl 06 de fevereiro de 2026

Foto: Imagem gerada por inteligência artificial para ilustrar a matéria.
Foto: Imagem gerada por inteligência artificial para ilustrar a matéria.

Sirva o café. Hoje ele vem quente e sem açúcar, como a política exige quando se quer honestidade.

Circula nas redes um cartaz bem produzido, desses de marketing profissional, bandeira do Brasil ao fundo, sorrisos calibrados e a promessa de “união pelo Brasil”. Nele, aparecem Ratinho Júnior como candidato a presidente e Ciro Gomes como vice. A legenda fala em “despolarização”, em centro esquerda dialogando com centro direita, em colocar o país acima das ideologias. Tudo muito limpo, tudo muito correto, tudo perigosamente vago.

O problema começa justamente aí. Quando a política passa a tratar conflito como ruído e não como motor da história. O Brasil não está rachado por excesso de ideologia, mas por desigualdade estrutural, concentração de poder e uma extrema direita que flertou com golpe, normalizou o ódio e tentou sequestrar o Estado. Chamar isso de “polarização” é um truque retórico conveniente, porque dilui responsabilidades e cria uma falsa equivalência entre quem atacou a democracia e quem a defendeu como pôde.

Ratinho Júnior representa o conservadorismo paranaense em sua versão polida. Governou bem para os indicadores que o mercado gosta de ler, foi alinhado ao bolsonarismo quando isso rendia dividendos políticos e tratou de silenciar quando o bolsonarismo virou peso morto. Não é um político de ruptura, é de continuidade. Sua presença nesse cartaz não aponta para novidade, mas para reembalagem.

Já Ciro Gomes é um caso mais complexo e mais doloroso, especialmente no Nordeste. No Ceará, ele e seu grupo romperam com a esquerda, se aliaram a setores do bolsonarismo local e passaram a tratar antigos aliados como inimigos. Ciro carrega hoje não apenas divergências políticas, mas um ressentimento explícito da esquerda brasileira, transformado muitas vezes em discurso agressivo, personalista e pouco construtivo.

Política e ressentimento

E aqui vale lembrar Ulisses Guimarães, com a lucidez que atravessa o tempo.

Política não se faz com ódio, porque ódio não é função hepática. Política é filha do coração.

Quando o coração se fecha no ressentimento, o projeto deixa de ser coletivo e vira ajuste de contas. Isso ajuda a explicar por que a presença de Ciro como vice em uma chapa de centro direita soa menos como estratégia e mais como sintoma de isolamento.

O que o cartaz não diz

O cartaz vende despolarização, mas entrega ambiguidade. Não apresenta programa, não diz o que será enfrentado, nem quem perderá privilégios. Serve para que cada público enxergue ali aquilo que deseja. Para alguns, é uma alternativa “civilizada” ao bolsonarismo. Para outros, é apenas um caminho pavimentado para que o bolsonarismo retorne pelo elevador social, de terno e discurso moderado.

União ou esquecimento?

Despolarizar, nesse contexto, não é unir o país. É anestesiar o debate. É pedir que se esqueça quem produziu o caos, quem atacou instituições, quem lucrou com o ódio. União verdadeira exige memória, conflito assumido e escolhas claras. O resto é publicidade.

E publicidade não governa país. Governa percepção. O Brasil precisa de política com coração, mas também com coluna vertebral. Sem isso, todo chamado à conciliação soa como convite ao esquecimento.

Sirva o café. Amargo, como a verdade costuma ser.

Quem serviu esse café?

Chris Schlögl
Chris Schlögl

É jornalista e criador do Café, Amigos e Sinceridades, um espaço onde opinião e café se misturam sem pressa. Prefere o amargor da verdade ao açúcar da conveniência. Escreve para provocar conversa, não consenso. Acredita que jornalismo é janela, não vitrine.

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