Enquanto se aponta o dedo para inimigos abstratos ou convenientes, a corrupção real se entranha nas cidades
Quando o discurso moral desaba na contabilidade do poder local

O debate público gosta de atalhos. Um deles é fingir que a corrupção municipal é um problema difuso, sem rosto, sem partido, sem método. Outro é tratá-la como acidente estatístico. Nenhum dos dois se sustenta quando se olha o mapa real das prefeituras brasileiras a partir de 2019.
Desde o início do governo Bolsonaro, o que se viu não foi uma ruptura ética no poder local, mas a consolidação de um modelo. Um modelo assentado em partidos específicos, em práticas reiteradas e numa blindagem discursiva eficiente. Enquanto o moralismo gritava em Brasília, a engrenagem municipal seguia funcionando como sempre funcionou.
Os dados estão aí. Não são abstrações.
Um padrão nacional com sotaque catarinense
Entre 2019 e 2025, dezenas de prefeitos foram presos, afastados ou alvos de operações por corrupção em todo o Brasil. O epicentro é Santa Catarina, mas o padrão se repete em estados diferentes, com as mesmas siglas, os mesmos métodos e o mesmo silêncio seletivo.
Santa Catarina, sozinha, concentra pelo menos 29 prefeitos presos desde 2020. Não por acaso, mas por filiação clara a partidos que sustentaram o bolsonarismo e o Centrão no plano nacional. PL, PP, PSD, MDB e PSDB aparecem de forma recorrente nas operações do GAECO, da Polícia Civil e do Ministério Público. Fraudes em licitação, desvios de recursos, contratos direcionados, organização criminosa. O cardápio é conhecido. O que muda é o município.
Outros estados, mesma receita
No Rio de Janeiro, a face desse modelo ganhou projeção nacional com Marcelo Crivella, então prefeito da capital e filiado ao Republicanos. Preso em dezembro de 2020, Crivella foi acusado de chefiar um esquema de propina envolvendo contratos públicos e empresários ligados à prefeitura.
Não se trata de um detalhe lateral, mas de um exemplo emblemático de como o discurso religioso, moral e anticorrupção conviveu sem constrangimento com práticas clássicas de desvio de recursos.
O Rio expôs aquilo que nos municípios menores costuma passar despercebido.
No Paraná, prefeitos ligados ao PSD e ao antigo PTB foram afastados e presos por esquemas de contratos fraudulentos. Em São Paulo, MDB e Republicanos aparecem em operações envolvendo licitações e serviços públicos. Na Bahia, PSD e PSDB surgem em prisões relacionadas a desvios de verba municipal. No Maranhão, o PL figura em casos de fraude contratual. No Piauí, o PP. No Amazonas, o MDB novamente. Em Minas Gerais, Avante e PSDB.
Não é exceção, é método
Não estamos falando de um ou dois partidos contaminados por indivíduos isolados. Estamos falando de um campo político que controla prefeituras médias e pequenas, domina o orçamento local, opera contratos de lixo, transporte, saúde e obras, e faz disso sua principal base de poder. A corrupção aqui não é desvio de caráter individual. É método administrativo.
Enquanto se apontava o dedo para inimigos abstratos ou convenientes, a corrupção real se entranhava nas cidades, longe das câmeras, protegida pela irrelevância midiática dos municípios e pela ideia confortável de que “prefeitura não importa”.
A máquina longe dos holofotes
Importa. Sempre importou.
É no município que o dinheiro circula com menos fiscalização. É ali que contratos se renovam sem disputa real. É ali que famílias políticas se perpetuam. E é ali que os partidos do Centrão e da direita institucional encontraram terreno fértil para exercer poder sem incômodo moral.
Quando se olha o conjunto, a narrativa desmorona. Não há superioridade ética. Não há gestão técnica imune a vícios. O que há é uma rede bem distribuída de poder local, sustentada por siglas específicas, protegida por silêncio cúmplice e legitimada por um discurso que nunca se aplicou a si mesmo.
O café esfria quando a gente finge que isso é coincidência.
Não é.
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