Cannabis, Congresso e a crueldade da omissão
Enquanto a política trava por medo moral, mães pobres aprendem na dor quem decidiu que seus filhos esperariam.

O PL 399/2015 passou mais de uma década circulando pelos corredores do Congresso como um corpo estranho. Avançou em comissões, foi debatido, distorcido, demonizado e, por fim, travado deliberadamente no plenário. Não por falta de evidência científica. Não por ausência de demanda social. Mas por opção política da direita conservadora, que transformou a cannabis medicinal em espantalho eleitoral.
O discurso foi sempre o mesmo. Legalização disfarçada. Porta de entrada. Ameaça à família. Uma narrativa moral que ignorou pacientes, pesquisas, associações e médicos que lidam diariamente com dor real.
Em janeiro de 2026, esse bloqueio foi rompido não pela política, mas pela Justiça. O STJ determinou que o Estado regulasse o cultivo de cannabis medicinal. Diante da ordem judicial, a Anvisa aprovou por unanimidade, em 28 de janeiro, as regras para o cultivo. Restrito a pessoas jurídicas, universidades e associações. Uso exclusivamente medicinal e científico. Nada de recreativo. Nada do pânico que a direita vendeu por anos.
Poucos dias depois, em 04 de fevereiro, outro avanço. A Anvisa autorizou a venda de fitofármacos de canabidiol em farmácias de manipulação, ampliando o acesso e reduzindo custos. Algo que pacientes esperavam há anos.
Tudo isso aconteceu apesar do Congresso, não por causa dele.
E é aqui que a política encontra a vida real
Uma amiga, mulher pobre, trabalhadora, bolsonarista convicta, vive hoje o impacto direto dessa omissão. A filha, autista em nível alto de suporte, enfrenta dificuldades severas para dormir. A sertralina não funciona mais. O cansaço se acumula. A criança sofre. A casa inteira gira em torno de noites interrompidas.
Na busca por alternativas, veio o choque. Descobrir que o tratamento à base de canabidiol, indicado em inúmeros casos semelhantes, esbarra menos na medicina e mais na ideologia. Médicos que se recusam a prescrever não por contraindicação clínica, mas por convicção política. Médicos, em sua maioria, alinhados ao mesmo campo ideológico que sempre atacou essa pauta.
Foi ali que ela entendeu algo que ninguém havia lhe contado. É a direita que trava essa política há anos.
Diante da recusa, surgiu a ideia impensável. Entrar na Justiça. Judicializar o direito da filha dormir. Judicializar o óbvio. Repetir, no plano individual, o mesmo caminho que o Estado foi obrigado a seguir coletivamente.
E ainda assim, mesmo depois dessa descoberta, ela não deixou de ser bolsonarista.
O dado mais cruel
Esse é o dado mais cruel de todos.
Nem a dor da própria filha rompe completamente a lealdade ideológica. Porque o bolsonarismo não é apenas um conjunto de ideias. É identidade. É pertencimento. É um lugar simbólico onde a culpa nunca é do campo político, mas sempre de algum outro ente abstrato.
O Congresso travou. A direita sabotou. A Justiça precisou intervir. A Anvisa executou.
E no fim, a conta segue sendo paga por mães pobres, mesmo quando elas defendem quem decidiu que seus filhos podiam esperar.
No café de hoje, a constatação é dura. A ideologia que se diz defensora da família é capaz de sacrificar até as famílias que lhe são fiéis.
Receba cafés fresquinhos de informação — notícias leves, rápidas e sempre quentinhas.
Entrar no grupo






