A paz que não queremos
Anistia não é reconciliação. É esquecimento travestido de pacificação.

Outro dia me deparei, mais uma vez, com essa palavra que a mídia padrão adora repetir quando a realidade começa a incomodar: pacificação. Ela aparece sempre assim, limpa, redonda, como se fosse um café passado na hora. Mas nunca é. Vem fria, requentada, servida para anestesiar.
Então dirigindo para o trabalho e ouvindo a rádio, toca O Rappa. A música Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero). E veio o insight, não como trilha sonora nostálgica, mas como diagnóstico. Porque aquela música nunca falou de paz. Falou do oposto. Falou do incômodo. Da recusa em aceitar a tranquilidade construída sobre injustiça, sobre violência normalizada, sobre corpos esmagados em nome da ordem.
Quando hoje falam em anistia, o que estão pedindo não é reconciliação. É esquecimento. Não é justiça. É silêncio. Não é virar a página depois de ler o livro. É arrancar páginas inteiras e fingir que a história ficou melhor assim.
A falsa pacificação funciona exatamente desse jeito. Ela exige que quem foi agredido sorria, que quem denunciou se cale, que quem alertou aceite um tapinha nas costas em nome de um futuro abstrato que nunca chega. Enquanto isso, os responsáveis seguem intactos, reabilitados, convidados para mesas de debate como se fossem apenas opiniões divergentes, não agentes de ruptura democrática.
Porque paz sem memória é conivência. Paz sem responsabilização é cumplicidade.
E aí entram os que se dizem “nem esquerda nem direita”. Esse discurso que soa sofisticado, mas que sempre aparece nos momentos decisivos para justificar a inação. Não escolher lado, nesse contexto, não é neutralidade. É escolher o lado de quem já tem poder suficiente para atravessar o caos sem consequências.
A mídia padrão adora esse personagem. Ele ajuda a vender equilíbrio enquanto empurra o debate para longe da palavra que realmente importa: responsabilidade. Responsabilidade histórica, política, jurídica e moral.
Não existe pacificação possível quando se pede que a sociedade engula golpes, ataques às instituições e projetos autoritários como se fossem apenas excessos emocionais de um período turbulento. Isso não é paz. É anestesia coletiva.
E eu, sinceramente, não quero essa paz.
Quero o desconforto que obriga a olhar para o que foi feito. Quero o barulho da memória. Quero a verdade atravessando a mesa do café, mesmo que derrame a xícara.
Porque só depois disso, talvez, a gente possa falar de paz. Não antes.
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