Santa Catarina não é quintal
Quando a família Bolsonaro tenta desembarcar no Sul, o discurso de moderação cai, as contradições aparecem e a democracia volta a ser testada como se fosse detalhe.

O café de hoje pede mais tempo. Não é gole rápido, nem conversa apressada. É aquele café que esfria um pouco enquanto a gente organiza as ideias, porque o assunto exige memória, contexto e alguma paciência para desmontar as simplificações convenientes.
A notícia de que Carlos Bolsonaro cogita disputar o Senado por Santa Catarina não é apenas exótica, como bem definiu o prefeito de Camboriú ao chamá-la de “loucura”. Ela é reveladora. Reveladora de como o bolsonarismo continua tratando o país como território disponível, como se estados fossem peças móveis de um tabuleiro familiar, sem história, sem cultura política própria, sem resistência.
Santa Catarina não entrou nesse radar por acaso. O estado virou vitrine eleitoral, abrigo simbólico e, em muitos momentos, laboratório de radicalização. O problema é que essa tentativa de transplante político já nasce atravessada por conflitos locais, vaidades, disputas pessoais e fissuras que desmontam a narrativa de união conservadora tão alardeada nas redes.
A divergência pública entre Jair Renan Bolsonaro e a filha do prefeito Leonel Pavan não é detalhe lateral. Ela escancara algo mais profundo: o bolsonarismo não constrói alianças, ocupa espaços. Não dialoga, atropela. E quando encontra resistência, reage com ressentimento, ironia e ataques pessoais. É um método conhecido, repetido à exaustão.
Nesse cenário, a reação de lideranças locais não deve ser lida como mera birra ou defesa de território político. Ela revela um incômodo legítimo com a tentativa de importar um projeto que já deixou rastros claros por onde passou: desinstitucionalização, conflito permanente e confusão deliberada entre interesse público e projeto pessoal.
É aqui que a fala de Pavan sobre “polarização” precisa ser confrontada com honestidade intelectual. Não estamos diante de dois extremos equivalentes, como se o país estivesse dividido entre exageros simétricos. Essa leitura é confortável, mas profundamente enganosa. De um lado, existe um campo amplo e plural, que reúne esquerda e centro esclarecido, movido pela defesa da democracia, das instituições e das regras mínimas de convivência política. Do outro, não há um “outro extremo”, mas um projeto de radicalização contínua que já extrapolou o discurso e produziu fatos concretos. O atentado de 08 de janeiro contra os Três Poderes não foi um desvio retórico, foi uma tentativa organizada de ruptura institucional. A revelação de grupos armados, como os chamados “kids pretos”, contratados para planejar o assassinato de autoridades, não é retórica inflamada, é crime político. A tentativa de atentado no aeroporto de Brasília tampouco foi metáfora, foi terrorismo doméstico. Chamar isso de polarização é diluir responsabilidades, é colocar no mesmo plano quem luta para preservar a democracia e quem trabalha ativamente para corroê-la.
Quando a família Bolsonaro tenta se reposicionar no cenário nacional, agora buscando novos estados, novos palanques e novos discursos, o que se vê não é renovação, mas repetição. A mesma lógica de ocupação, o mesmo desprezo pelas mediações políticas, a mesma aposta no conflito como combustível eleitoral.
Santa Catarina, com todas as suas contradições, não merece ser tratada como rota de fuga ou trampolim. O debate político aqui precisa ser mais do que importação de slogans, likes trocados entre primeiras-damas ou encenações de moderação que não se sustentam quando confrontadas com os fatos.
O café de hoje fica com esse gosto amargo, mas necessário. Não para gritar, não para provocar, mas para lembrar. Lembrar que democracia não é abstração, não é palavra vazia, não é excesso de zelo institucional. É escolha diária, é memória ativa, é recusa consciente a projetos que já demonstraram, com clareza, a que vieram.
Que esse café sirva para alongar a conversa, atravessar silêncios difíceis e, quem sabe, ajudar alguns a perceber que não se trata de lado, mas de limite. Porque há momentos em que não escolher também é escolher. E Santa Catarina já viu o suficiente para saber disso.
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