Quem sustenta o passo
A fé distrai enquanto o dinheiro organiza

O café de hoje não é contemplativo. É investigativo. Não vem para acompanhar frase bonita nem gesto simbólico. Vem para seguir rastro. Porque sempre que a política se apresenta como sacrifício pessoal, como caminhada moral ou prova de fé, vale acionar a regra mais antiga do jornalismo, aquela que nunca falha: siga o dinheiro.
A chamada caminhada de Nikolas Ferreira se encaixa perfeitamente nesse modelo. Vendida como ato espiritual e resistência individual, ela funciona, na prática, como operação de imagem. O debate se concentra no corpo em movimento, no esforço físico, na estética do sacrifício. Enquanto isso, tudo o que sustenta materialmente essa encenação fica fora do quadro. Caminhadas não se fazem apenas com vontade. Exigem logística, equipe, deslocamento, produção audiovisual, hospedagem e articulação política. Nada disso é espontâneo. Tudo isso custa e custa muita grana.
Esse tipo de ação não existe isoladamente. Ela depende de rede. De financiamento. E é justamente aí que o discurso moral passa a cumprir uma função central: desviar atenção. Enquanto o público acompanha o espetáculo simbólico, pouco se fala das conexões financeiras que orbitam o mesmo campo político. O avanço de investigações ligadas ao caso Master ajuda a iluminar essa engrenagem. Não como episódio pontual, mas como parte de um sistema mais amplo de circulação de dinheiro, influência e proteção.
Dentro dessa teia aparecem figuras como o pastor Zettel, citado em reportagens por sua proximidade com lideranças bolsonaristas e por vínculos com estruturas financeiras sob investigação. Zettel não é exceção nem desvio. Ele representa o ponto de interseção entre fé, dinheiro e política. A religião funciona como linguagem de mobilização e blindagem moral, enquanto o financiamento real opera em circuitos empresariais, jurídicos e bancários.
Os registros públicos de doações eleitorais de Zettel por exemplo, ajudam a completar o desenho. Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas (Do qual ele foi o maior doador) não foram sustentados por espontaneidade popular abstrata. Suas campanhas receberam apoio de redes bem estruturadas, compostas por empresários, líderes religiosos e operadores políticos. É o mesmo campo que hoje se apresenta como vítima do sistema, mas que sempre soube operar dentro dele com eficiência, especialmente quando se trata de proteger interesses econômicos.
Essa lógica não fica restrita ao eixo Brasília–São Paulo. Em Santa Catarina, ela se reproduz com naturalidade. A adesão de figuras como Guilherme Cardoso buscando engajamento no seu instagram ao embargar nessa, mostra como o bolsonarismo opera como franquia política. O discurso é nacional, a estética é replicada, e a sustentação se organiza localmente. A caminhada de Nikolas não ecoa no estado por acaso. Ela encontra terreno preparado, redes ativas e afinidade política já estabelecida.
Nada disso serve apenas para engajar seguidores. Serve para blindar estruturas. Enquanto a atenção pública se ocupa de símbolos, a discussão sobre financiamento, vínculos empresariais, interesses da Faria Lima e corruptores de colarinho branco permanece diluída. A moral ocupa o centro da cena para que o caixa permaneça fora do foco.
Esse método não é novo, mas segue eficaz. Criar ruído emocional sempre foi uma forma eficiente de proteger interesses materiais. Por isso o bolsonarismo investe tanto em performance e tão pouco em transparência. Por isso fala em perseguição enquanto opera com redes sólidas de apoio financeiro, jurídico e político.
O café de hoje não pede fé nem indignação automática. Pede atenção. Quando a política se move demais no campo simbólico, quase sempre é porque algo pesado precisa permanecer imóvel no campo material. E é aí que a pergunta volta, incômoda e necessária: quem sustenta o passo?
Café, amigos e sinceridades existem para isso. Para olhar menos para o gesto e mais para a engrenagem. Para lembrar que toda caminhada política tem um chão. E alguém sempre paga por ele.
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