Quando a suspeita é manchete e a verdade vira rodapé
O método não é erro. É projeto.

O Banco Central divulgou nota informando que o diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino, colocou à disposição do Ministério Público Federal e da Polícia Federal suas informações bancárias, fiscais e os registros das conversas mantidas com o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.
O esclarecimento ocorreu após o jornal O Globo publicar que Aquino teria enviado mensagens pedindo que o BRB adquirisse créditos do Banco Master para ajudar a instituição a resolver problemas de liquidez.
O BC afirmou que a recomendação jamais existiu e negou qualquer orientação para a compra de carteiras fraudulentas. Esse episódio é didático. E perigoso.
Acusações sem prova e silêncio na correção
Didático porque escancara o modo de operação de parte da grande imprensa quando o assunto envolve o sistema financeiro e seus amigos certos. A suspeita vira manchete. O desmentido vira nota. O verbo é afirmativo quando acusa e defensivo quando corrige. O leitor não é informado, é conduzido.
Perigoso porque a acusação não é pequena. Ela sugere interferência indevida de um diretor do Banco Central em favor de um banco privado. Não se trata de fofoca de bastidor. Trata-se de jogar desconfiança sobre a autoridade monetária, gerar ruído institucional e alimentar um ambiente de instabilidade que interessa a muita gente.
O mais revelador não foi apenas a nota do Banco Central. Foi o silêncio posterior do jornal diante dos fatos que começaram a desmontar a narrativa original. Nenhuma autocrítica, nenhuma explicação clara sobre a fragilidade da informação publicada. O diretor expôs sigilos, abriu conversas, se colocou sob escrutínio público. O jornal seguiu adiante como se nada tivesse acontecido.
E veio mais um desmentido
E então veio mais um desmentido, ainda mais constrangedor para quem plantou a suspeita. Conselheiros do próprio BRB negaram publicamente que tenha havido qualquer tipo de pressão do Banco Central para a compra de carteiras do Banco Master. Em comunicação interna, afirmaram que em nenhuma reunião do conselho foi apresentada, formal ou informalmente, qualquer orientação, pedido ou sugestão atribuída ao órgão regulador, tampouco existe registro em atas ou documentos oficiais que sustente a tese ventilada pela reportagem. Ou seja: não foi só o BC que negou. O próprio banco envolvido desmontou a acusação.
Um ecossistema de poder
Esse método não nasce do nada. Ele dialoga com uma rede política e econômica bem conhecida. O Banco Master não flutua no vácuo. Ele orbita o mesmo campo onde circulam nomes como Daniel Vorcaro, Ibaneis Rocha, o governador que transforma Brasília em balcão de negócios, e setores empresariais que aprenderam a prosperar sob o guarda-chuva do bolsonarismo.
Não é coincidência que esse ecossistema tenha florescido durante o governo Bolsonaro, com Paulo Guedes abrindo porteiras e Roberto Campos Neto comandando o Banco Central com a sensibilidade social de uma planilha de Excel. A financeirização agressiva, a tolerância com zonas cinzentas e a blindagem dos de cima formaram um pacote fechado.
Tarcísio, o falso técnico vendido como gestor neutro, é fruto da mesma árvore. A ideia de que basta tirar o discurso ideológico e vestir um terno para que a falcatrua desapareça. Não desaparece. Ela apenas muda de endereço. Sai do palanque e entra na vida financeira do país. Já pararam pra pensar que se não tivéssemos resgatado a autonomia das instituições, entre elas a Polícia Federal e se os milicianos se mantivessem no poder, não se chegaria na Faria Lima? O tal “mercado financeiro” que fica triste com justiça social, mas se alegra com seus lucros que agora se mostram ilícitos.
O método por trás do erro
Voltando à mídia, quando um jornal escolhe insinuar um crime sem prova robusta, ele não está combatendo o sistema. Está disputando espaço dentro dele. Ataca quando convém, silencia quando o alvo é estrutural demais para cair. O bolsonarismo não é apenas um movimento político. É uma cultura de negócios, de imprensa e de poder que naturaliza a suspeita seletiva. O resultado é este. Um diretor do Banco Central precisou provar que não fez o que não fez. Os nomes certos permaneceram preservados. E o leitor foi treinado, mais uma vez, a desconfiar sempre do lado errado.
Café, Amigos e Sinceridades não é sobre erro jornalístico. É sobre método. E método, quando se repete, deixa de ser falha. Passa a ser projeto.
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