Orelha
Entre cadelas e catarse digital, reflexão sobre o caso do cachorro Orelha expõe a linha tênue entre dor e barbárie.

Antes de qualquer argumento, proponho uma imagem. Um desenho simples. Três cadelas.
Uma é dourada, grande, ocupa espaço com tranquilidade, pelos quentes de sol, olhar manso de quem sabe que pertence. Amora. Outra é malhada, corpo atento, mistura de sobrevivência e doçura, dessas que aprenderam cedo demais a se virar. Rugi. A terceira é pequena, preta, olhos vivos, presença delicada e firme ao mesmo tempo. Belinha.
Três vidas que não são metáfora. São afeto concreto. São cuidado cotidiano. São responsabilidade assumida.
Sou pai de pets. Comprei a Amora com dois meses. Belinha e Rugi vieram depois, adotadas, também ainda filhotes. Nunca tinha tido cachorro. Meu irmão sempre teve. Eu não. Hoje não consigo imaginar a vida sem elas. Como eu e minha esposa não tivemos filhos, elas são nossas crianças permanentes, nosso exercício diário de cuidado, afeto, responsabilidade.
Digo isso antes de qualquer coisa porque não falo de longe. Não falo por cinismo. Também fiquei triste, revoltado, indignado com o caso do cachorro Orelha. A violência gratuita contra um animal dói, revolta, atravessa. Quem ama bichos sente no corpo. Eu senti.
vingança travestida de justiça
O problema começa depois.
O que se espalhou nas redes não foi sede de justiça. Foi desejo de vingança. Gente pedindo morte. Tortura. Linchamento. Execução sumária de quatro adolescentes. E aqui aparece a hipocrisia brasileira em estado bruto. Uma hipocrisia que atravessa ideologia, mas que hoje tem algo ainda mais grave, gente que se diz de esquerda ecoando pauta clássica da direita punitivista, clamando por redução da maioridade penal, celebrando discurso de ódio como se fosse justiça social.
Não é.
O que se quer ali não é justiça. É catarse. É ódio canalizado. É a sensação ilusória de que, se destruirmos aqueles corpos, algo se resolve. Não se resolve.
espelho da barbárie
E sejamos honestos. Esses adolescentes não são invisíveis sociais. São playboys. Riquinhos. Filhinhos de papai. Pais com dinheiro. Dinheiro que compra advogado caro, que compra silêncio, que compra tempo, que compra juíza, que compra decisão, que compra impunidade. Todos sabemos disso. Fingir surpresa é teatro moral.
Por isso mesmo, o ódio escancarado não nasce da crença na justiça. Nasce do desespero diante da certeza de que ela não virá. É vingança antecipada porque já se sabe o final do filme. E ainda assim, transformar isso em espetáculo de sangue não nos torna melhores. Nos torna parecidos com aquilo que dizemos combater.
Nietzsche avisou. Quando você olha demais para o abismo, o abismo olha de volta. E em algum momento você já não sabe mais quem é quem.
sensibilidade seletiva
Esse país trata cachorro melhor do que morador de rua. Eu vejo isso na minha cidade todos os dias. Campanha, ração, indignação, compartilhamento, choro. Ao lado, gente dormindo no chão, apanhando da polícia, sendo chamada de lixo, vagabundo, ameaça. Ninguém pede pena de morte para empresário que financia trabalho escravo. Ninguém pede linchamento de político que rouba milhões e mata indiretamente milhares. Mas um crime que fere nossa sensibilidade imediata vira licença para o ódio absoluto.
A direita e o bolsonarismo já entenderam isso há muito tempo. Eles se alimentam desse sentimento. Transformam dor em munição. Ódio em política pública. A novidade trágica é ver setores da esquerda embarcando nessa onda, repetindo slogans, aplaudindo figuras midiáticas que reduzem tudo à lógica do castigo exemplar.
coragem de sentir e sustentar
Nossa pauta virtual, convertida em fúria, muda o quê exatamente? Na vida real, o que acontece quando o caso passa pelo funil do dinheiro, do poder político, do Judiciário seletivo que conhecemos tão bem?
Não se trata de perdoar. Não se trata de passar pano. Eles devem responder pelo que fizeram. Devem ser responsabilizados dentro da lei. O que está em jogo aqui é outra coisa. É o risco de normalizar o desejo de morte como resposta política. É a facilidade com que trocamos justiça por ódio quando achamos que o sistema não funciona. E ele não funciona mesmo. Mas virar espelho da barbárie não conserta nada.
Minhas cadelas me ensinaram algo simples. Cuidar exige constância. Não é impulso. Não é explosão. É escolha diária. Talvez esteja faltando isso ao debate público. Menos grito. Menos sangue imaginado. Mais lucidez. Mais coragem de sustentar princípios mesmo quando a dor aperta.
Café amargo hoje. Sem açúcar. Porque sinceridade também dói.
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