O STF não é herói, é sobrevivente
Defender a legalidade hoje não apaga o papel do Supremo no caminho que levou ao golpe, à prisão de Lula e ao país fraturado que ainda tentamos entender.

Café passado, conversa aberta e a sinceridade que esse espaço pede. Há um erro que parte da esquerda insiste em cometer, talvez por cansaço, talvez por medo, talvez por necessidade momentânea de se agarrar a alguma instituição. Transformar o STF em herói.
Não é.
O Supremo não virou guardião da democracia por iluminação tardia. Age hoje, em grande parte, por autopreservação. Porque percebeu que o monstro que ajudou a alimentar também o colocaria na mesa de sacrifícios.
A memória precisa entrar na conversa. Gilmar Mendes impediu Dilma de nomear Lula ministro, rasgando a Constituição em nome de um cálculo político. Toffoli negou a Lula o direito básico de se despedir do irmão. Alexandre de Moraes vem do grupo de Temer, do mesmo arranjo político que se consolidou a partir do golpe de 2016. Nada disso é detalhe. Nada disso foi acidental.
Na prisão de Lula, o STF fez parte do grande acordo nacional. Uns falaram demais, outros se calaram, mas ninguém rompeu. A prisão só aconteceu porque foi permitida, chancelada, empurrada com adiamentos e omissões. A democracia não caiu de uma vez. Foi sendo corroída com despacho, silêncio e verniz jurídico.
Agora, quando Jair Bolsonaro é transferido para a Papudinha, muita gente confunde cena com redenção. Não é justiça histórica. É contenção de danos. É o sistema tentando sobreviver ao caos que ele mesmo ajudou a criar. Não há virtude nisso, há cálculo.
Isso não significa, em hipótese alguma, defender ataques da extrema direita ao STF. A direita quer destruir o Supremo para governar sem limites. A esquerda precisa criticar o Supremo para não mitificá-lo. São coisas radicalmente diferentes.
Reconhecer que hoje o STF atua como freio não exige aplauso cego. Freio não é projeto. Autodefesa não é compromisso democrático. Sem memória, a democracia vira apenas um intervalo entre golpes.
Que esse café sirva também para conversar com calma com amigos e familiares que ainda se dizem de direita. Não com grito, não com ironia, mas com lembrança. Relembrar o caminho, as escolhas, os silêncios e as consequências. Repensar não é trair ninguém. É amadurecer.
Café, amigos e sinceridades existem para isso. Para não esquecer. Para não romantizar. Para tentar, juntos, sair desse ciclo. Sem Anistia. A melhor forma de pacificar é punir os infratores que atentam contra a democracia.
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