O discurso e o esgoto
Como o bolsonarismo em Santa Catarina vende moral, inventa inimigos e normaliza a corrupção.

O café de hoje não é para acordar, é para lembrar. Lembrar com calma, sem gritaria, sem meme, sem atalhos. Daqueles cafés que pedem cadeira puxada e conversa longa, porque o assunto não cabe em frase curta nem em slogan de rede social.
Santa Catarina vive um fenômeno curioso, para dizer o mínimo. Aqui, o bolsonarismo conseguiu algo que parece improvável à primeira vista: unir sob o mesmo discurso a diarista que rala a semana inteira, a pequena comerciante endividada, o empresário confortável, a advogada cristã, o pastor e o político profissional. Todos repetindo, com pequenas variações, a mesma ladainha sobre moral, corrupção, família e ameaça comunista. Um discurso simples, emocional, repetido à exaustão. O problema é que ele desmorona quando encosta na realidade.
Quando se olha para os dados, o romantismo acaba rápido. Até janeiro de 2026, Santa Catarina soma 29 prefeitos e ex-prefeitos presos em operações de combate à corrupção nos últimos cinco anos e meio. Não é um raio em céu azul, nem perseguição política. É padrão. Operação Mensageiro, Fundraising, Et Pater Filium, Limpeza Urbana, Caronte, Terra Nostra. Trocam os nomes, repete-se o método. Propina, fraude em licitação, contratos públicos transformados em moeda de troca.
Os partidos se repetem também. MDB, PP, PL, PSD. Siglas que dominam o campo da direita e do bolsonarismo no estado. Durante as fases mais duras da Operação Mensageiro, levantamentos mostravam algo difícil de relativizar: todos os prefeitos presos naquele recorte eram aliados ou apoiadores de Jair Bolsonaro. A exceção isolada à esquerda não muda o desenho geral. Apenas impede a desculpa fácil de que corrupção tem cor ideológica única, enquanto confirma onde ela se concentrou em Santa Catarina.
Onde a coisa desanda
E aqui começa a engrenagem da hipocrisia. Como um movimento que se apresenta como guardião da ética, da família e dos bons costumes consegue protagonizar tantos escândalos locais? A resposta não está só nos políticos, mas no discurso que os sustenta.
O bolsonarismo aprendeu a falar com públicos muito diferentes usando o mesmo combustível: o medo. Para quem vive na base da pirâmide social, dizem que querem destruir sua fé, sua família, sua segurança. Para a classe média alta, a conversa vem embalada em meritocracia, livre iniciativa e combate à corrupção. Em ambos os casos, cria-se um inimigo abstrato, sempre distante, sempre ideológico, que nunca está sentado na cadeira do prefeito nem assinando contratos fraudulentos.
O inimigo invisível
É aí que entra a obsessão pelo comunismo. Santa Catarina combate um comunismo que não existe. Não existe no governo, não existe na economia, não existe nas prefeituras, não existe na vida concreta das pessoas. O Brasil é capitalista, desigual, financeirizado, com bancos lucrando como nunca e serviços públicos sucateados. Ainda assim, prefeitos, vereadores, pastores e influenciadores seguem vendendo a fantasia da ameaça vermelha enquanto desviam dinheiro da coleta de lixo, da limpeza urbana, da saúde básica.
O comunismo imaginário funciona como cortina de fumaça. Enquanto se aponta para o fantasma, ninguém olha para o caixa da prefeitura. Enquanto se grita contra uma ameaça inexistente, contratos são fraudados, propinas circulam e alianças espúrias seguem firmes. A diarista acredita estar defendendo sua fé. A advogada cristã acredita estar defendendo valores morais e a livre iniciativa. Ambas acabam sustentando um sistema que rouba recursos públicos e corrói exatamente aquilo que dizem proteger.
Não é polarização
Quando alguém aponta isso, a resposta vem pronta: polarização. Mas não é polarização. Polarização pressupõe dois extremos equivalentes. O que existe é outra coisa. De um lado, gente defendendo democracia, instituições, investigação e punição. Do outro, um campo político que relativiza o 08 de janeiro, silencia diante de planos para matar autoridades, minimiza tentativa de atentado em aeroporto e chama tudo isso de exagero ou narrativa da imprensa.
Não são dois lados iguais. Há um abismo ético entre defender a democracia imperfeita e normalizar quem tentou destruí-la.
Santa Catarina, o laboratório
Santa Catarina não é exceção virtuosa. É laboratório. Um lugar onde o discurso conservador se vende como ordem, mas entrega desordem institucional. Onde se fala em Deus enquanto se rouba dinheiro público. Onde se inventa um inimigo ideológico para não encarar crimes bem concretos.
O café de hoje fica assim, meio amargo. Não para humilhar quem foi enganado, mas para lembrar que engano repetido não é destino. Olhar para os números, para os nomes, para os fatos também é um ato de fé. Fé na democracia, na memória e na capacidade de aprender antes que o esgoto transborde de vez.
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