Manchete Que Engana
Quando a pergunta não informa, apenas induz. E o erro já vem pronto.

O café de hoje vem amargo. Não pelo pó, nem pela água, mas pela forma como certas manchetes continuam sendo servidas como informação, quando na verdade são armadilhas bem calculadas.
Há perguntas que não são perguntas. São acusações disfarçadas. Quando um portal estampa “O Agente Secreto usou a Rouanet?”, ele não está buscando resposta. Está acionando um reflexo condicionado já contaminado por anos de desinformação.
A palavra Rouanet, para muita gente, virou sinônimo de culpa automática. Não importa como a lei funciona. Não importa se o filme poderia ou não acessar esse mecanismo. O cérebro do leitor já recebeu a mensagem principal antes do clique. A suspeita foi plantada. O resto vira detalhe técnico que quase ninguém lê.
E o detalhe é simples: o filme não usou a Lei Rouanet. Nem poderia. A própria legislação não contempla longas-metragens. A matéria explica isso, sim. Mas explica depois. Quando a manchete já cumpriu seu papel.
Esse tipo de construção não é erro jornalístico. É método. A pergunta funciona como álibi editorial. Se alguém critica, a resposta vem pronta: “era só uma pergunta”, “o texto esclarece”. Só que jornalismo não se mede pela explicação tardia, mas pelo impacto imediato.
O foco também se desloca. A obra some. O debate artístico desaparece. No lugar entra o tribunal moral. O artista deixa de criar e passa a se justificar. Não apresenta trabalho, apresenta defesa.
Nada disso é ingenuidade. É escolha. É caça-clique baseado em ambiguidade calculada, em suspeita reciclada, em desinformação que se espalha antes da correção.
No fim, o leitor sai achando que foi informado. Mas foi apenas conduzido. E a xícara esvazia enquanto a mídia continua enchendo o noticiário de perguntas que não querem resposta, só engajamento.
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