Entre o Ceará e o Vale: quando o preconceito veste fantasia de superioridade
Minha travessia entre duas origens revelou como o bolsonarismo encontrou no Sul um terreno fértil para transformar ignorância em ideologia e crueldade em política pública.

Antes de qualquer coisa, puxa uma cadeira. Pede um café. Esse texto é também pra você que se diz meu amigo e vota no bolsonarismo. Pra você que me chama de irmão, de parceiro, de gente boa, mas que talvez nunca tenha parado para ouvir de verdade o que eu vivi, o que eu vi e o que eu continuo vendo.
Não escrevo para ofender, nem para converter à força. Escrevo porque amizade, quando é real, suporta desconforto. Suporta silêncio quebrado. Suporta verdades que não cabem em meme, nem em slogan. Se você conseguir atravessar esse texto comigo, sem levantar da mesa no meio do café, talvez algo mude. Talvez não. Mas pelo menos terá me escutado.
Agora, se quiser, sigo.
Esse texto é um convite. Não é para desconhecidos, nem para adversários imaginários da internet. É para você que se diz meu amigo e é bolsonarista. Para você que senta comigo, ri comigo, aperta minha mão, mas vota e defende um discurso que atravessou a minha vida como violência desde muito cedo.
Puxa uma cadeira e fica. Não para rebater, não para justificar, não para repetir frases prontas. Fica para ouvir. Porque amizade que só suporta concordância não é amizade, é conveniência. E se você realmente me considera amigo, precisa escutar o que esse projeto político sempre significou para corpos como o meu, histórias como a minha e vidas que nunca foram convidadas para a mesa.
Não escrevo esperando aplauso, muito menos conversão. Escrevo porque cansei de fingir que dá para separar afeto pessoal de escolhas políticas que matam, excluem e humilham. Se depois desse café nada mudar, ao menos não será por falta de aviso.
Agora sim, vamos ao texto.
Vim de Fortaleza, terra da minha mãe, Ceará quente, seco, duro e poético. Fui para Blumenau, terra do meu pai, Sul úmido, ordeiro na aparência e brutal nas entrelinhas. Cheguei menino, trazendo no corpo e na fala o Nordeste. O sotaque ainda morava em mim. A pele moreno caramelo, cor que no Ceará me chamavam de branco, aqui virou motivo de dúvida, suspeita e riso. O sobrenome alemão confundia ainda mais as cabeças estreitas. E foi aí que ouvi, com aquele sotaque carregado de falsa franqueza, uma frase que nunca mais saiu de mim: tu não pode ser alemão, tu é preto.
Ali eu entendi cedo que identidade, para alguns, não é história, é hierarquia. Não importa de onde você vem, mas onde eles te colocam. Fui apresentado ao preconceito em camadas. Pela classe social, porque não tinha dinheiro. Pela cor, porque aqui eu não era branco o suficiente. Pela origem, porque nordestino carrega o estigma do atraso, da preguiça inventada, da ignorância que nunca foi minha.
O desconhecimento do Nordeste no Sul não é inocente. É cultivado. Há um orgulho em não saber. Uma ausência quase total de cultura geral, de curiosidade, de escuta. Não falo de falta de acesso, mas de recusa. Um certo louvor à própria ignorância, tratada como virtude. Uma ojeriza ao diferente que beira o medo, e um medo que rapidamente vira ódio. Sempre com a crença infantil de superioridade moral, racial ou intelectual.
Esse caldo sempre existiu. O bolsonarismo apenas deu nome, bandeira e megafone. Aqui, slogans como Sul é o meu país não surgiram do nada. Eles são herdeiros diretos dessa mentalidade que se acha escolhida, especial, superior. Não por mérito, mas por nascimento. É a mesma lógica que rejeita cotas nas universidades, como fez recentemente o governador e políticos locais. A mesma lógica que ignora desigualdades históricas e chama privilégio de esforço individual.
É também a lógica que transforma eleitores da esquerda em inimigos internos. Não adversários políticos, mas ameaças morais. Gente a ser ridicularizada, expulsa, silenciada. O mesmo raciocínio que permite que um sargento expulse andarilhos pela BR em Itajaí, seja preso, e depois, com a vitória de um prefeito bolsonarista, seja promovido e alçado a secretário de segurança. A mensagem é clara. Violência contra os indesejáveis não apenas é tolerada, é recompensada.
Essa mentalidade se revela também na perseguição a quem age com humanidade. Padre Júlio Lancelotti virou alvo porque cuida de gente de rua. Não porque comete crimes, mas porque quebra a lógica da higienização social. Para o bolsonarismo, pobre tem que sumir, não ser acolhido. Eles se dizem cristãos, mas odeiam o Evangelho quando ele aparece em forma de gente suja, faminta e sem endereço. Acham-se santos, raça escolhida, enquanto flertam com o nazismo em sua essência, a desumanização do outro.
E aqui entra um elemento central desse imaginário: a ideia de povo escolhido. O bolsonarismo brasileiro bebe diretamente dessa noção, importada tanto do fundamentalismo norte-americano quanto da leitura distorcida e instrumentalizada do Estado de Israel. O cristão bolsonarista se vê como parte de um grupo eleito por Deus, autorizado a julgar, excluir e até aplaudir a morte do outro em nome de uma suposta verdade superior.
É por isso que muitos se sentem confortáveis, e até orgulhosos, em louvar o genocídio em Gaza. Chamam massacre de legítima defesa, crianças mortas de dano colateral, fome de estratégia. E fazem isso sem pudor, com versículos bíblicos na bio e bandeira de Israel no perfil. Quando alguém denuncia o genocídio, a resposta vem pronta e cínica: antissemita. Uma inversão moral grotesca. Criticar um Estado e suas ações criminosas não é odiar um povo. Isso é fato, documentado, histórico. Mas o bolsonarismo precisa dessa mentira, porque sem ela o castelo desmorona.
A lógica é a mesma que sustenta o racismo local. Se eu sou o escolhido, o outro é descartável. Se Deus está comigo, qualquer violência se justifica. É o mesmo raciocínio que legitima o apartheid lá fora e a exclusão social aqui dentro. Muda o cenário, o discurso permanece.
O caso das crianças que torturaram cães, culminando no sacrifício do cão Orelha, escancara isso. Não foi um episódio isolado. Foi sintoma. Pais que se acham acima da lei, que ameaçam, que se apoiam em contatos no Judiciário e na política. A impunidade não é acidente, é projeto. A ideia de superioridade se estende até o direito de destruir vidas, humanas ou não, sem consequência.
Em Florianópolis, o prefeito faz blitz na rodoviária, impedindo pessoas de entrar na cidade. Chama de ordem o que é higienização social. Um gesto que ecoa práticas nazistas clássicas, separar quem merece circular de quem deve ser afastado. Tudo com aplauso de quem confunde limpeza urbana com limpeza humana.
Nada disso é desconectado. O discurso bolsonarista encontrou eco no preconceito estrutural do Sul porque fala a língua de quem sempre se achou melhor. Ele legitima o que antes era sussurrado. Dá verniz político ao racismo, à xenofobia, à crueldade de classe e agora também à barbárie internacional, desde que praticada pelos aliados certos.
E é profundamente hipócrita. Porque enquanto posam de moralistas, os dados se acumulam. Prefeitos que se dizem defensores da família, da pátria e de Deus sendo presos ou afastados por corrupção. O bolsonarismo não combate o sistema, ele se alimenta dele. A pergunta que poucos fazem é simples: quem paga essa conta?
Nada no bolsonarismo é espontâneo. Nem as manifestações, nem as campanhas de desinformação, nem as bandeiras do Brasil fincadas em bambus por toda Itajaí. Elas não brotam do chão. São muitas, estrategicamente colocadas, sempre mudando de lugar. Não é voluntarismo, é símbolo. É ocupação de espaço. É marcação de território financiada por empresários da região que bancam essa engrenagem. Dinheiro não falta quando o objetivo é sustentar um projeto autoritário travestido de patriotismo.
Minha história pessoal não é exceção. Ela é fio condutor. Entre o Ceará e o Vale do Itajaí, eu vi como o Brasil profundo se manifesta de formas diferentes, mas com a mesma raiz. Aqui, essa raiz encontrou no bolsonarismo um espelho confortável. Um discurso que absolve a ignorância, santifica o preconceito e transforma desigualdade em destino.
O problema nunca foi o Nordeste. O problema é a incapacidade de olhar para si e reconhecer o próprio atraso moral.
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