A ordem que precisa excluir
Trump, Santa Catarina e o uso do Estado para legitimar desigualdade

A nova Estratégia Nacional de Defesa dos Estados Unidos, apresentada pelo governo Trump, não é apenas um documento militar. Ela é uma declaração de visão de mundo. Os Estados Unidos se colocam como centro natural da ordem global, autorizados a intervir, pressionar e impor limites sempre que julgarem necessário. Defesa, nesse vocabulário, deixa de ser proteção coletiva e passa a ser instrumento de comando.
Essa lógica não se restringe ao plano internacional. Ela se reproduz com fidelidade em escalas menores, onde o poder também se entende como superior e legitimado a escolher quem pertence e quem deve ser afastado.
Santa Catarina é um desses laboratórios.
Sob o governo de Jorginho Mello, o estado consolidou uma política que se apresenta como defesa da meritocracia, da ordem e da eficiência, mas que na prática opera pela exclusão sistemática. Um exemplo emblemático é a lei estadual que extingue políticas de cotas raciais, afrontando diretamente a Constituição Federal e decisões consolidadas do Supremo Tribunal Federal, que reconhecem ações afirmativas como instrumentos legítimos de correção de desigualdades históricas.
Essa lei não é erro jurídico. É gesto político.
Ao atacar as cotas, o Estado reafirma a ideia de que desigualdade não é problema estrutural, mas falha individual. Que oportunidades já estariam dadas. Que quem ficou para trás merece ficar. Trata-se de uma política de apagamento histórico travestida de neutralidade.
O mesmo estado que rejeita políticas reparatórias se vende como modelo de integridade. Mas os fatos desmontam essa narrativa. Quase 30 prefeitos catarinenses já foram presos ou afastados por corrupção nos últimos anos, envolvidos em esquemas de desvio de verbas públicas, fraudes em licitações e organizações criminosas. Ainda assim, a corrupção nunca é tratada como sistema. É sempre exceção. Sempre caso isolado.
O bolsonarismo fornece a chave simbólica para sustentar essa contradição.
Enquanto a corrupção real é minimizada, constrói-se um inimigo imaginário permanente. O comunismo. Um fantasma mobilizado num país profundamente capitalista, financeirizado e governado por interesses de mercado. O medo não precisa ser verdadeiro. Precisa ser útil.
Essa lógica se expressa também na xenofobia institucionalizada. Em Florianópolis, a prefeitura adotou práticas de contenção de migrantes, chegando ao ponto de barrar pessoas na rodoviária, como se pobreza fosse crime e circulação interna fosse ameaça à ordem urbana. Em Itajaí, a política em relação à população em situação de rua não passa por acolhimento ou assistência estruturada. Passa por perseguição, remoção forçada e criminalização da miséria. Não há auxílio. Há repressão.
Essas práticas não são desvios administrativos. São coerentes com um projeto que entende o Estado como filtro moral.
Nesse ambiente, não surpreende que Santa Catarina concentre um número expressivo de células nazistas identificadas por investigações e monitoramentos. Onde o discurso da superioridade cultural, racial e econômica encontra validação simbólica no poder público, o extremismo deixa de ser margem e passa a ser sintoma.
Trump opera essa lógica em escala global. Bolsonaro fez isso no plano nacional. Jorginho Mello e gestores locais a reproduzem em nível estadual e municipal. A gramática é a mesma. Defender a ordem significa excluir. Proteger a moral significa negar direitos. Governar significa escolher quem merece existir com dignidade.
A lei contra cotas é parte central desse mecanismo. Ela não corrige nada. Ela protege privilégios. Assim como a Estratégia de Defesa americana não busca estabilidade global, mas manutenção de hierarquias, a política catarinense não busca igualdade, mas preservação de uma identidade que se acredita superior.
Quando o Estado se organiza para negar, expulsar e hierarquizar, não estamos diante de eficiência administrativa. Estamos diante de um projeto político claro.
E todo projeto que precisa excluir para se sustentar já declarou, mesmo sem dizer, quem ele pretende sacrificar.
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