A hierarquia das vidas nunca foi um acidente
Quando império, fé e política decidem quem pode morrer

As revoltas recentes nos Estados Unidos não cresceram porque o Estado matou pessoas. Cresceram porque matou quem não deveria morrer segundo a lógica interna do sistema. Essa distinção é central para entender o trumpismo, sua aceitação social e sua força política.
Imigrantes morrem há décadas em ações do ICE, da Border Patrol e da polícia. Morrem no deserto, em centros de detenção, em operações urbanas transmitidas em vídeos que logo desaparecem do noticiário. Esses corpos raramente têm nome repetido. São enquadrados como incidentes, confrontos, operações. Viram estatística. Nunca ruptura moral. Essas mortes fazem parte do funcionamento esperado do Estado americano. Não geram crise. Produzem apenas ruído periférico.
Quando o morto é cidadão americano, o pacto se rompe.
A morte de cidadãos aciona outro gatilho simbólico. Ela ameaça o acordo implícito entre o Estado e quem pertence ao “nós”. Cria medo na classe média branca, nos eleitores moderados, nos setores que ainda acreditam na ideia de controle e previsibilidade. Coloca em risco a narrativa de profissionalismo e legalidade. Não é empatia. É autopreservação do sistema.
Por isso a revolta não é humanitária. Ela é identitária.
A mensagem silenciosa é simples. Isso passou do limite porque poderia ter sido comigo. Quando imigrantes morrem, a lógica é outra. Eles já estavam fora da ordem. Quando cidadãos morrem, o discurso muda. O Estado perdeu a mão.
A reação institucional confirma essa hierarquia. Governadores, parlamentares, grandes veículos e setores do Judiciário só reagem com força quando a violência escapa do alvo socialmente autorizado. Mesmo com provas, vídeos e denúncias, mortes de imigrantes raramente provocam esse tipo de resposta.
Isso não é falha moral isolada. É estrutura.
Os Estados Unidos foram construídos sobre cidadania como privilégio, violência seletiva e vidas descartáveis fora do “nós”. Trump não cria essa lógica. Ele remove o verniz liberal e acelera o processo.
É por isso que Trump ecoa o pensamento de uma parcela significativa da direita americana, tanto republicana quanto democrata. A crença na superioridade moral, civilizatória e histórica dos Estados Unidos sobre outras nações. Obama expandiu guerras. Clinton bombardeou. Democratas e republicanos trataram o chamado terceiro mundo como espaço legítimo de intervenção, morte e experimentação política. A diferença sempre foi estética. Trump abandona a linguagem civilizatória e assume o direito bruto de mandar.
Essa hierarquia de vidas não é apenas geopolítica. Ela é racializada, cultural e simbólica. Algumas vidas importam mais. Algumas nações existem para decidir. Outras para obedecer.
O paralelo com o discurso ariano do nazismo não é exagero retórico. É análise estrutural. O projeto hitlerista não se sustentava apenas na biologia, mas na ideia de destino histórico. Um povo eleito, autorizado a governar e a subjugar. O vocabulário muda, a arquitetura mental permanece. Superioridade, ordem, pureza, grandeza. Hoje, liberdade, mercado, democracia. O fundo é o mesmo.
Trump encontra eco porque não fala sozinho. Ele vocaliza um inconsciente coletivo de direita que atravessa partidos. E essa lógica não fica contida nas fronteiras americanas.
No Brasil, a direita míope, colonizada e ressentida importou esse imaginário sem filtro crítico. O bolsonarismo bebeu diretamente dessa fonte. A ideia de alinhamento automático ao império. A desumanização de quem está fora do “nós”. A naturalização da violência estatal. A crença de que direitos só valem para alguns.
O ataque ao Capitólio e o 08 de janeiro não são episódios isolados nem cópias grotescas. São expressões locais de um mesmo imaginário autoritário global. A recusa do resultado eleitoral. A crença numa nação verdadeira representada por poucos. A disposição para a violência em nome de uma hierarquia moral superior.
Esse imaginário hoje se expressa de forma ainda mais brutal em Gaza. O genocídio do povo palestino expõe a falência moral definitiva do discurso civilizatório ocidental. O Estado que se funda na memória do Holocausto aplica, como política, a lógica da desumanização absoluta contra outro povo. Quem ontem foi vítima do nazismo hoje produz vítimas sob a mesma gramática de aniquilação.
Nada disso acontece no vácuo. Trump apoia. O bolsonarismo apoia. Setores amplos do cristianismo brasileiro aplaudem. A mesma hierarquia de vidas opera sem disfarce. Palestinos não contam como corpo político. São tratados como dano colateral, obstáculo histórico, estatística aceitável.
O fio que liga Trump, Bolsonaro e Gaza é o mesmo. A crença de que algumas vidas são sagradas e outras sacrificáveis. Que alguns povos têm direito à força e outros apenas ao luto silencioso. Que a violência é legítima quando aplicada aos que estão fora do “nós”.
Trump e Bolsonaro não são acidentes. São respostas do sistema quando sua hierarquia é ameaçada. Eles não representam um desvio da história. Eles são o momento em que a história deixa de fingir.
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