A direita que aplaude o sequestro
Quando até uma sandália vira escândalo inventado, o autoritarismo já perdeu qualquer pudor. E quando um presidente é sequestrado, aplaudir vira patriotismo seletivo.

Puxa a cadeira. O café hoje não é leve. A direita brasileira conseguiu transformar uma frase genérica em histeria política. A propaganda das Havaianas não falou de voto, não citou partido, não atacou governo algum. Disse apenas que o ano pode começar com os dois pés, não com o pé direito. Só isso. O resto foi projeção. Foi medo de espelho. Foi a extrema direita enxergando ideologia onde só havia metáfora.
E o mais revelador é que a marca lucrou com a polêmica. Porque no Brasil atual, a direita reage como criança que se assusta com a própria sombra. Não importa o conteúdo. Importa o surto. Importa manter o clima de guerra permanente, mesmo quando o inimigo é uma sandália de borracha. O autoritarismo moderno não precisa de fatos. Precisa de ruído.
Enquanto isso, o mundo real segue mais brutal. Um presidente de um país soberano é sequestrado pelos Estados Unidos, levado à força, sem processo internacional respeitado, sem debate sério sobre legalidade. E a direita brasileira comemora. Bate palma. Vibra. Chama de vitória civilizatória aquilo que, se fosse feito por qualquer outro país, seria chamado de terrorismo de Estado.
É aqui que o cinismo se escancara. A mesma direita que grita soberania quando convém, que se diz patriota, que se enrola na bandeira, vibra quando uma potência estrangeira sequestra um chefe de Estado. Não há princípio. Há alinhamento. Não há moral. Há conveniência.
A reação à propaganda das Havaianas e a celebração do sequestro caminham juntas. Ambas revelam uma direita que já não distingue símbolo de realidade, nem justiça de vingança. Uma direita que se ofende com frases neutras, mas se excita com a violência internacional quando ela vem do lado do mapa que ela se ajoelha.
O discurso é sempre o mesmo. Ordem, família, valores. Na prática, o que existe é aplaudir o arbítrio, normalizar o abuso e chamar força bruta de solução. A sandália vira escândalo porque desorganiza a narrativa. O sequestro vira festa porque confirma o desejo de dominação.
O café termina amargo porque a constatação é simples. Essa direita não quer democracia, nem soberania, nem debate. Quer submissão. Quer força. Quer silêncio. E quando não encontra isso dentro do próprio país, vibra ao ver outro sendo esmagado lá fora.
Café, amigos e sinceridades. Quando a histeria se volta contra uma propaganda inofensiva e a euforia se volta para um sequestro internacional, não estamos diante de contradição. Estamos diante de um projeto.
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